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Hétero Sexualidade Homoafetiva

Já me senti inúmeras vezes enciumada com os amigos do meu namorado. Eu nunca entendia o porquê. Na verdade, me sentia paranoica; neurótica. Afinal de contas, o que havia na relação deles que me fazia sentir mal? Foi então que um trecho de um livro da Marilyn Frye surgiu no meu Facebook. Lembro até hoje da sensação de alívio e indignação, por perceber que fazia absolutamente todo sentido. E, de certa forma, limpava a minha barra por sentir aqueles ciúmes. O texto diz o seguinte: “Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reserva exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles mais admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; que eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão sempre dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles dese...

O Mal do Século

Tem algumas semanas que não consigo sentar na frente do computador para escrever. Provavelmente ainda não me abri a esse ponto, mas como várias outras pessoas, sofro do mal do século, vulgo ‘depressão misturada constantemente com crises de ansiedade’. Uma guerra constante entre me acalmar dizendo que faço tudo ao meu alcance e está tudo bem, e ceder a uma autossabotagem que ronda minha cabeça como uma cobra apertando sua presa. Repito como um mantra: sou uma boa mãe, uma boa pessoa, uma boa esposa; se cheguei num lugar confortável isso é mérito meu. Porém o buraco negro dentro de mim vai sugando todas as coisas que um dia já fiz de bom. Como uma borracha apagando momentos da vida em que fui o melhor de mim e conquistei com esforço o que já vivi. Me vejo absorta num oceano de lama onde nada foi o suficiente, nada foi o bastante. Me afogo. Tento com todas as forças não alimentar ainda mais, uso todas as minhas energias para mover cada pedaço de terra a minha volta, e me erguer a superfíc...

Feliz dia internacional da mulher pra quem?

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Chegamos na semana da mulher. Aquela semana em que nos desejam um dia incrível, aparecem com flores, chocolates ou jantares. As redes sociais pipocam fotos e palavras sobre como as mulheres são o doce da vida, a delicadeza e a beleza. Ou como somos guerreiras sempre dando conta de tudo e mais um pouco. Mas, feliz 8 de março pra quem, exatamente? Não quero estragar esse momento pra você, espero de verdade que você tenha tido uma segunda-feira cheia de amor e paz. Porém, e o resto do ano? Desculpa, mas eu preciso perguntar. Como vai o resto do ano pra você, mulher? Você já conseguiu ganhar o mesmo salário que um homem ganha na sua posição?  Alias, você já conseguiu um emprego depois de dizer que tem filhos? Quantas vezes esse ano já duvidaram da sua capacidade ou do seu intelectual e te fizeram fazer parecer que você só está onde está por ter ‘agradado’ alguém importante, ou só por que é bonita? Você já olhou como andam os números de feminicídio no nosso país? Na última vez que chequ...

Aquele Que Não Deve Ser Nomeado

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Não acredito que vou falar sobre isso aqui, mas acho que não dá mais pra controlar. Minha cidade está entrando no processo de redução de horários por causa da pandemia, de novo, como em muitas outras. Sendo que, antes disso, haviam liberado bares, restaurantes e até boates a abrir, seguindo as regras, com música ao vivo, até uma da manhã. E, agora, podem funcionar apenas até 22h. Ok, mas qual é o problema disso tudo? Na minha visão, está sendo feito um “oito ou oitenta” que prejudica todos os empresários. Eu sou totalmente a favor de já terem feito isso há muito tempo atrás. Falta de aviso não foi, né? Mas houve uma relaxada absurda por aqui. Não só os bares e boates estavam abrindo, como estavam abarrotados de gente, sem máscara, como se fosse um dia normal na vida. E onde estava, nesse momento, a fiscalização?  Quando algum tempo atrás essas “regalias” foram estabelecidas, era necessário que se fizesse uma superfiscalização por todos os bairros da cidade. Tanto para multar ou par...

3 em 1

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 1 – Síndrome do Impostor Eu imagino que algumas pessoas devem detestar o que escrevo aqui toda semana, ou que sequer leiam. Na verdade, isso só me faz insistir ainda mais em bater na mesma tecla. Até porque, saber que muita gente não se interessa pelo assunto, ou discorda dele completamente, é só combustível para que eu continue. Falar sobre o machismo que vivemos diariamente me causa duzentas e noventa e nove emoções ao mesmo tempo, toda vez que sento pra escrever é a mesma coisa. Uma delas é que me sinto falando de uma posição muito privilegiada, me questiono muito em como eu poderia usar este espaço para dar voz a pessoas que não tem a mesma oportunidade e sofrem muito mais com o patriarcado que eu. Muitas vezes uso exemplos de mulheres negras que simplesmente não se encaixam no feminismo branco, pois a luta delas ainda está atrasada em relação a nossa, pelo ‘simples’ fato de termos nascido brancas e não precisarmos lutar além de tudo contra o racismo, e na maioria das vezes ta...

Bem x Mal?

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Eu vou admitir que têm sido muito difíceis esses últimos meses. Me sinto tomada por um ódio que eu sei que não me pertence, mas do qual sou incapaz de me libertar. Às vezes, até evito entrar em mídias sociais, ler notícias ou mesmo assistir TV, para tentar de alguma forma salvar minha saúde mental diante disso tudo que estamos vivendo. Mas, se não confiro o que está acontecendo no país, me sinto alienada. Uma vez me disseram que fugir de falar sobre política também é política. E, desde as eleições, quando Bolsonaro se tornou presidente, vivo me questionando onde quero estar nessa história: na militância ou na alienação. O brasileiro tem uma energia muito boa para certas coisas e consegue até nos piores momentos fazer piada sobre determinados assuntos. Ultimamente temos pensado constantemente: “rir pra não chorar”. Entramos numa comodidade, infelizmente, ao ver tantas, mas tantas, notícias ruins, que a falta de esperanças e forças se tornou regra. Como dizem na internet: “o brasileiro n...

Música Machista Popular Brasileira

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Da dupla Claudinho e Buchecha a Chico. Passando por funk, rock, pagode, sertanejo, axé, samba ou pop, enfim, não importa o ritmo, a música popular brasileira está recheada de letras machistas. Sejam as mensagens explícitas ou entrelinhas, é só procurar um pouquinho que elas pipocam na nossa cara. Depois de passar por vídeo no TikTok que me deixou perturbada, corri pro Google e... pronto, uma lista infinita de letras que viraram sucesso em algum momento descrevendo violência, abuso sexual, incesto e até pedofilia. Inclusive o título desta coluna é exatamente de um projeto criado apenas por mulheres para expor músicas de cunho machista (MMPB). Mas é óbvio que eu não vim até aqui só pra criticar e sair correndo, não é mesmo?  Vamos começar com a dupla que citei no começo e a música ‘Nosso Sonho’, que literalmente fala do amor entre um homem e uma criança de 12. Nunca percebeu? Pois é. A primeira dica começa aqui: “Nossas emoções eram ilícitas. Que, apesar das vibrações proibia o amor ...