Achismos

Quem sou eu? Uma base biológica, genética que evolui e se constrói a partir do tempo e todos os meios que habita. Quando percebo o que acabei de dizer, logo surge uma outra pergunta, após anos de divã, quem é essa que agora observa e julga a própria existente com outros olhos? Uma vertente de mim mesma, também criada pelo meio mais recente habitado, que não reconhece a anterior mais como si? Auto-conhecimento é ir aos poucos afastando quem era do que deseja ser, abraçar o que se foi e seguir se construindo infinitamente? Se repartir e se reconstruir. Uma memória da infância já vem forte dizendo: desde pequena ouço a observadora de mim mesma soprar no meu ouvido, mais madura que eu, me chamando a um novo patamar de existir. A voz que agora se mistura com as outras vozes dentro de mim, mais sensata, mais coerente, mais velha, mas com pouca autoridade tentando conter as rebeldes injustiçadas e carentes que se revoltam com o meio constantemente. Eu a ouço, mas ela sou eu, e eu sou as outras, então, quem sou eu de verdade? Todas elas. A criança que se sente amada e logo em seguida abandonada. A adolescente carente e revoltada que aceita tudo para tapar vazios que a criança não tinha como tapar. A adulta desesperada por ter se perdido tanto no desejar dos olhares que não sabe mais pra onde ir sem que apontem um norte. A que assiste tudo isso e chora por não saber como guiar.
Se auto-conhecer também é enlouquecer um pouco. É ter medo de olhar todas elas nos olhos e sentir o que elas sentiram de novo e de novo até entender e poder enfim continuar. É acessar lugares de si com medo e se responsabilizar pelas más escolhas que fez quando ainda não sabia como se regular. É descobrir que ali no canto tem mais uma que surgiu ontem e que a de amanhã vai ter que lidar.
É impossível voltar ao ponto onde nada disso fazia sentido. Quando percebo todas elas, mesmo que já estando ali constantemente, eu as dou vida, sentido e propósito. O que antes era barulho passa a ter forma e comunicar. O que antes pareciam pedras soltas sem sentido fazendo tropeçar, ganha história (início, meio e as vezes fim). Gostaria de dizer que mesmo entendendo tudo isso agora, amanhã vou perceber que de "tudo" não tem nada. Provavelmente vou deixar de existir ainda tentando entender como existi ou pq existi. Vou respirar pela ultima vez com certeza ainda ramificada conversando com minhas vertentes criadas sem nunca ter entendido todas. Dito isto hoje, pergunto pra Elisa de ontem com todo carinho do mundo: pq quer tanto entender o outro?


Elisa de ontem entrou na conversa: "o medo de ser dona de si e bancar o caos é o que me joga de volta pro meio buscando não só fuga, mas alguém que possa autorizar a minha existência pra que eu não precise me responsabilizar pelos fracassos antes mesmo de tentar." Elisa de ontem saiu da conversa

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