MORITA - Parte 1 - Janine
Fazia pelo menos trinta minutos que eu estava sentada diante daquela loja. Haviam cancelado meu ônibus, e todos os outros que pudessem me levar para fora daquela cidade que só fazia chover há sete dias consecutivos. Não havia outra opção, eu teria que engolir meu orgulho e ligar para Isabele. Nós havíamos brigado muito feio e eu havia prometido para mim mesma que seria a última vez. O problema é que depois de sete dias eu já havia usado todo o dinheiro que juntei para vir para essa maldita cidade resolver minha vida. E agora estou aqui encharcada, com frio, sem dinheiro, sem ônibus e discando os números que eu tinha certeza de que não digitaria nunca mais depois de hoje.
A placa da loja dizia "Morita Modas". Uma fachada toda de madeira, com uma iluminação amarelada e soturna, que parecia acompanhar o ritmo antiquado da loja, que provavelmente funcionava há décadas. Nada ali parecia ter menos de oitenta anos, especialmente a vendedora, que com certeza era a própria dona do estabelecimento. Baixa, de óculos, corcunda, com cabelos completamente brancos e pele enrugada. Isa e eu secretamente a chamamos de “Dona Morita” e combinamos de nunca em hipótese alguma perguntar qual seria seu nome verdadeiro.
Ligar para minha ex-namorada com o rabo entre as pernas para pedir ajuda, depois de jurar que não veria mais aqueles olhos verdes nem por fotografias. Era isso ou dormir na rua. Isa com certeza riria de um jeito irônico, me mandando voltar para o hotel como se absolutamente nada tivesse acontecido, ou pior, como se tudo tivesse realmente acontecido, só que não significasse nada. Isso estava me corroendo. Mais uma vez ela passaria por cima de todo meu sentimento, dizendo que eu havia feito drama por nada. Tempestade em pingo d'água. E que quando eu me acalmasse, tudo voltaria ao normal. Só que eu não queria que tudo voltasse ao normal, eu não aguentava mais aquela situação e eu não sei como ela sempre dava um jeito de me dobrar e enfiar no bolso com aquele jeito calmo e persuasivo, com aqueles olhos verdes caridosos anunciando o quanto me amava. Eu só sei que ela conseguia, e toda raiva sumia. Só que depois voltava com toda força quando algo na televisão esfregava na minha cara o quão trouxa eu estava sendo por achar que algum dia tudo iria mudar, afinal, já faz cinco anos que eu e Isa nos apaixonamos bem aqui na frente desta mesma loja: “Morita Modas”.
Olhei para a tela do celular em minhas mãos, com o nome de Isa gritando no topo, enquanto minhas pernas quicavam no chão, de ansiedade. Meu dedo se segurava a apenas 2 milímetros do botão de discar. Eu não consigo! Num impulso, joguei meu celular para longe. Eu preferia dormir naquele banco. Um sentimento de angústia tomou conta do meu peito, e todas as lágrimas que não haviam caído antes resolveram cair ao mesmo tempo.
- Você está bem, minha filha? – Ouvi a voz se aproximar trazendo junto consigo um cheiro de tecido mofado. Minha cabeça pesava em minhas mãos e tudo que consegui fazer foi abrir olhos e encarar aqueles sapatos felpudos que mais pareciam pantufas embrulhando pequenos pés frágeis e trêmulos. Respirei fundo e sem coragem ou força, respondi assim mesmo – Estou bem, senhora. Obrigada. – Eu não conseguiria dizer mais que isso sem minha voz falhar e entregar ainda mais minha situação.
Acompanhei com o olhar o andar vagaroso, que ao invés de se afastar, se aproximou ainda mais. O cheiro que havia sentido antes se misturou com um perfume de rosas antigo que eu já havia sentido antes em alguma outra senhora, provavelmente.
- Sabe, eu já estive nesta mesma situação, neste mesmo banco há muitos e muitos anos atrás. Ver você aí me trouxe algumas boas lembranças – Dona Morita estava empenhada em puxar assunto e honestamente, ela me pegou com a tal memória. Respirei fundo novamente e levantei finalmente a cabeça para encarar aquela senhorinha, que de tão pequena e corcunda, parecia quase da mesma altura que eu sentada no banco. “Boas lembranças” pensei tentando entender por que me ver aos prantos sozinha numa noite daquelas traria aquela querida intrometida, boas lembranças. A olhei nos olhos e ela sorriu.
- Você esta um caco, minha filha.
- Sim, a senhora definiu muito bem a minha situação.
- Que tal irmos na minha loja e você tomar um copo d’água para se acalmar?
Só consegui assentir com a cabeça enquanto enxugava meu rosto encharcado com as mangas do casaco.

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