AMAMENTAÇÃO E APLV


Eu pensava que a amamentação era algo instintivo e fácil. Nenhuma mulher que eu conhecia que havia sido mãe tinha em algum momento relatado algo ruim sobre amamentar.

E para minha enorme surpresa existia não só inúmeras mulheres relatando uma dificuldade absurda, como também havia cursos sobre a “ciência” por trás da “pega correta”.

Depois daquele episódio com a enfermeira no hospital, por mais que eu soubesse que havia me machucado, eu não imaginava nem de longe que aquele momento teria “destruído” meus próximos meses.

O que eu sentia toda vez que ele pegava era tão forte, que por mais que eu me segurasse, eu acabava gritando de dor. Todas as vezes que ele soltava era um alívio, e um susto, de ver que além de leite, também havia sangue.

A posição “comum” com a criança deitada nos nossos braços, era um pesadelo. Então comecei a tentar colocar aquele serzinho minúsculo em posições diferentes para ver se em alguma outra posição, doía menos. Era um experimento. Sempre mudando. Almofadas e travesseiros para todos os lados. Até que eu achei.

Nem de longe era confortável, eu precisava estar sempre sentada e posturada. E ele precisava estar quase em pé, o que me fazia usar as duas mãos e as pernas para segurar e apoiar ele. Era o único jeito de dar certo, e eu não iria desistir. Eu queria aquele momento, e eu faria de tudo. Era isso, de duas em duas horas, praticamente.

A dor foi amenizando aos poucos e o peito foi cicatrizando. A gente estava aos poucos conseguindo. O problema é que eu troquei um desconforto por outro. Eu não gritava mais, mas era como se houvesse uma faca cravada nas minhas costas. A posição era tão, mas tão desconfortável para mim, que era óbvio que em algum momento a dor ia migrar para outros lugares.

Nenhum remédio para dor era recomendado para uma mulher amamentando. Então era isso ou desistir. Aguentei até que eu tivesse a segurança de colocar ele de volta na posição “normal”.

Uns quase 3 meses depois, leite empedrado, dor, febres, dor, legumes congelados no peito para amenizar, dor, mandinga, dor, oração, dor e muita persistência, conseguimos. Voltamos a posição normal, podíamos olhar olho no olho, era só alívio e amor.

Daí veio a suspeita da APLV. Quando eu finalmente poderia viver aquilo que eu havia lutado tanto, a pediatra vira para mim e diz que meu filho poderia ter alergia a proteína do leite de vaca. O que me impossibilitava de comer qualquer coisa que possuísse traços de leite.

Não sei se vocês costumam olhar rótulos e embalagens, mas significa deixar de comer quase tudo que existe que não seja natural. É separar tudo o que você come ou usa para comer de todas as outras pessoas, pois nada poderia ter tido sequer contato com traços de leite de vaca.

E o pior, como ele tinha apenas uns 4 meses, não existe exames comprobatórios. Aliás, até praticamente os dois anos, nenhum resultado de exame poderia ser conclusivo. E além do leite de vaca, tudo e qualquer coisa que geralmente pode causar alergia nas pessoas, também deveriam ser evitados.

Ainda vou chegar nesse ponto, mas eu nasci com distúrbio alimentar, e minha mãe, por amor e medo, me amamentou até meus 5 anos de idade. Para alguns, um absurdo enorme. Para mim, uma das maiores provas de amor. Um dia eu explico.

Eu já não me alimentava maravilhosamente bem então eu comecei a emagrecer, perder cabelo e precisar de suplementos vitamínicos para segurar a barra. E eu segurei. Nada iria me segurar, eu não deixaria de amamentar meu filho por nada nesse mundo. Será?

Aos 8 meses de idade, após a introdução alimentar estar fluindo muito bem, a pediatra precisou conversar comigo e me mandar descansar. Veio a recomendação da lata de leite (quase 200 reais cada uma), veio a mamadeira e a frase que eu não queria ouvir:

“Mãezinha, você fez sua parte, você não está bem, você precisa abrir mão”.

Eu chorei, e choro agora escrevendo. E vou continuar chorando todas as vezes que tocar nesse assunto.

Cada uma de nós tem todo direito de escolher qual caminho vai escolher tomar quando se trata da amamentação dos nossos bebês (aliás, todos os assuntos relacionados aos nossos bebês). E todas as decisões devem ser respeitadas e apoiadas ao máximo. Quero que saibam que eu respeito cada uma de vocês em suas escolhas, sejam elas quais forem.

A minha escolha foi descontinuada, e eu realmente precisava aceitar.

E doeu. 

Muito mais que a dor da pega errada, muito mais que a dor nas costas, muito mais que as posições desconfortáveis, muito mais que o peito empedrado, febres ou ter que parar de comer tudo o que eu mais gostava.

Doeu mais que isso tudo junto.

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