MÃE DE DOIS
Não é fácil admitir uma falha grotesca. E falar do meu relacionamento com o pai do meu filho é admitir que errei em níveis estratosféricos comigo mesma. Quando engravidei, meu casamento já estava falido. Foi literalmente empurrar com a barriga. E por isso também fiquei tão mal. Eu sabia, no fundo, que ia ter que lidar com tudo sozinha mesmo estando acompanhada. E sou o tipo de pessoa que tenta salvar navios que já afundaram.
Eu tomava anticoncepcional e havia menstruado duas vezes no mesmo mês. Eu tinha certeza de que não estava grávida. Fui para o hospital com crise renal e voltei para casa com um teste de gravidez. Deveria ter caído fora ali, ter sido mãe solo, ter me priorizado. Mas não fui. E além de ficar, criei esperanças de que as coisas fossem melhorar em algum momento.
Ele é um cara legal, sabe? Cheio de potencial, superinteligente, paciente, não quer guerra com ninguém. Só que era um cara bem quebrado. Cheio de traumas de infância, cresceu sem mãe, sem pai, rodeado de relacionamentos superficiais e no final das contas eu fazia todos os papeis. O papel da namorada, da melhor amiga, mas principalmente, eu fazia o papel de mãe.
Achava que quando nosso filho nascesse, o baque de ser pai ia mover ele de lugar e que aos poucos ele iria desancorar. Erro meu. Estagnado e confortável ele estava, assim permaneceu. Acomodado na rotina de trabalho e vídeo game, precisando se mover muito pouco ou quase nada, muito porque eu aceitava, e assim permaneceu.
Demorei bastante para aceitar que estava num relacionamento abusivo. As coisas precisaram piorar muito além disso para que eu realmente percebesse que estava sendo usada e manipulada por alguém que supostamente deveria me amar. É muito difícil aceitar que mesmo me achando uma pessoa forte e independente, havia me costurado a ele, e orbitava o universo dele sem nem perceber.
E o pior, ele sabia disso, e mesmo que inconscientemente, ele se aproveitou até a última gota.

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