MORITA - Parte 2 - Isabelle

Ignorada por completo. Era assim que eu estava me sentindo. Janine, desta vez, aparentemente estava falando sério. Nós já discutimos outras vezes ao longo desses anos. Muitas, na verdade. Mas nunca desse jeito. E, sobretudo, ela nunca havia me ignorado por tanto tempo. As ligações vão direto para a caixa postal. Já tentei de três números diferentes. Nenhuma mensagem é entregue. É possível que ela tenha trocado de celular? Não. Isso seria ridículo. Ninguém troca de número só para evitar uma pessoa. A não ser que esteja realmente decidida a desaparecer. Não quero parecer paranoica. Estou apenas preocupada. São coisas diferentes. Estou considerando ligar para Alba. Na verdade, isso resolveria tudo. Alba atende, diz que Janine chegou e que não quer falar comigo. Eu desligo, aceito a situação e sigo em frente. Simples. A outra possibilidade é que Alba diga que Janine não chegou. Prefiro não considerar essa possibilidade. Porque deixei minha namorada sair do hotel à noite, debaixo de chuva, para pegar um ônibus de volta para casa? Se alguma coisa aconteceu com ela, a culpa é minha. Meu Deus. Meu Deus, eu vou enlouquecer. Calma. Respira, Isa.

Alba e Janine dividem um apartamento. Acho que Alba é o mais perto de uma amizade que Janine já teve. Ela costuma dizer que prefere assim. Que não é solidão, é liberdade. E eu entendo. Tenho a mesma dificuldade que ela de confiar nas pessoas. Acho que é por isso que nos damos bem, temos muito em comum. Foi engraçado quando percebi que estava apaixonada por ela. Era a última coisa que eu precisava acrescentar aquele ano da minha vida. Mas foi impossível não me encantar por cada canto de Janine. Ela tem toda razão de estar me odiando neste exato momento. Se eu fosse ela, também iria me bloquear e nunca mais voltar. Mas agora, eu preciso saber que ela chegou bem em casa, só isso.

Estou recalculando o que eu acho que a Alba sabe para não dizer nenhuma besteira. Lembro que misturamos certas verdades com algumas mentiras para facilitar a história. Por exemplo: Janine trabalha numa empresa grande de publicidade no modelo home-office. Ou seja, ela pode trabalhar de onde quiser. Combinamos que sempre que eu preciso viajar para trabalhar, ela me acompanha como minha secretária. Sendo assim, Alba acha que eu sou a chefe chata que faz com que ela trabalhe presencialmente as vezes. O problema é que eu não sei o que Janine disse para ela quando veio dessa vez. Foi surpresa até para mim.

Pareceu uma eternidade entre o primeiro sinal do telefone até que eu escutasse um "Alô" do outro lado.

- Alô. Bom dia. Falo da Ultrapubli. Não estamos conseguindo entrar em contato com a funcionária Janine e este número consta como segunda possibilidade nos arquivos - Respirei fundo e senti a ansiedade consumindo todo meu corpo como um raio atiçando cada célula.

- Oi, ah sim! Sou a Alba, colega de quarto da Janine. Aconteceu alguma coisa?

- É... Hum... Ela não entra em contato conosco há três dias. Tentamos o número dela, mas consta como desligado. Você teria alguma informação que pudesse nos ajudar a contatá-la?

- Olha, não falo com ela há uns dez dias, desde que ela saiu para a última viagem a trabalho, e para falar a verdade, ela não deixou claro quando voltava. O que é normal. Geralmente quando ela está viajando não nos comunicamos muito mesmo. Mas vou tentar falar com ela e posso te retornar caso tenha alguma notícia.

Senti meu coração batendo tão forte dentro do peito que fiquei zonza por alguns segundos. Janine não havia voltado para casa. Meu cérebro deu um nó tentando pensar para onde ela poderia ter ido que não fosse para casa. Nada veio a minha mente.

- Entendo. Estamos realmente preocupados pois segundo nossas informações ela já deveria ter retornado da viagem há três dias. Além do mais havia um relatório com prazo que ainda não recebemos. Se puder, por favor, pedir para que ela entre em contato com a empresa o mais rápido possível, agradecemos.

- Claro, claro. Pode deixar.

- Obrigada, Alba, ficaremos aguardando.

Após desligar senti meu corpo caindo no chão em câmera lenta. Fui perdendo as forças nas pernas até que quando percebi já estava completamente esparramada no tapete da sala. Do outro lado do apartamento ouço a voz de Igor:

- Amor, está tudo bem? Que barulho foi esse?




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